Capítulo 30 - Turquia

 

Entre dois continentes, uma viagem de emoções

Chegamos à Turquia sabendo que seria uma viagem diferente. O país tem uma característica que, por si só, já desperta a curiosidade de qualquer viajante: está entre dois continentes e carrega, em suas cidades, marcas de civilizações que ajudaram a escrever a História.

Começamos por Istambul.

Logo cedo saímos para o tradicional passeio panorâmico e tivemos nosso primeiro contato com Caio, nosso guia turco, que havia morado muitos anos no Brasil e falava português fluentemente.

Istambul foi, durante séculos, capital de grandes impérios. Chamou-se Constantinopla, esteve no centro dos impérios Romano, Bizantino e Otomano e guarda essa história em suas ruas, igrejas, palácios e mesquitas.

Conhecemos o Palácio Topkapi, antigo centro do poder otomano, e mergulhamos no Mercado das Especiarias, onde até o aroma parece fazer parte do passeio.

Mas faltava o Bósforo.

Navegando entre Europa e Ásia

Fizemos um cruzeiro pelo estreito que separa — e, ao mesmo tempo, une — Europa e Ásia.

Só isso já valeria uma crônica.

De um lado, Europa. Do outro, Ásia. E nós navegando entre os dois continentes.

Depois veio o Grande Bazar, um dos maiores e mais antigos mercados cobertos do mundo. Ficamos por lá até o anoitecer, caminhando entre lojas, cores, aromas e aquela confusão organizada que também faz parte do encanto de Istambul.

À noite ainda encontramos disposição para conhecer as proximidades do hotel.

No dia seguinte visitamos a Mesquita Azul e Santa Sofia, uma das construções mais impressionantes herdadas do período bizantino.

Depois, atravessamos a Ponte do Bósforo.

Deixávamos fisicamente a Europa e entrávamos na Ásia.

Nosso próximo destino era Ancara.

Ancara e a estrada para a Capadócia

Tínhamos pouco tempo na capital turca e precisávamos aproveitá-lo. Visitamos o mausoléu de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia, e o Museu das Civilizações da Anatólia, com seu extraordinário acervo das diferentes civilizações que ocuparam aquela região.

Ao entardecer seguimos para a Capadócia.

No caminho, uma surpresa: o Lago Salgado, outra paisagem completamente diferente de tudo que havíamos encontrado até então.

Mas o grande espetáculo ainda estava por vir.

Capadócia — entre as Chaminés de Fadas e o céu

A Capadócia parece ter sido desenhada para desafiar a imaginação.

Visitamos o vale de Göreme, suas igrejas escavadas nas rochas e as famosas Chaminés de Fadas, formações que a natureza levou milhares de anos para esculpir.

Marina ainda conheceu a cidade subterrânea de Özkonak, utilizada durante séculos como refúgio pelos habitantes da região. Eu fiquei de fora dessa aventura subterrânea.

Mas, naquela manhã de março, havia acontecido algo que sozinho já justificaria nossa passagem pela Capadócia.

O voo de balão.

E aqui tenho dificuldade para explicar.

Porque existem coisas que a gente descreve e outras que simplesmente sente.

Quando o balão começou a subir e aquele cenário apareceu diante de nós, veio uma sensação difícil de colocar no papel. Estávamos lá em cima, quase parados no céu, enquanto a Capadócia se estendia abaixo de nossos pés.

Marina, eu e os amigos que formamos durante a viagem — Gil, Janice e Sinézio — vivemos aquele momento cada um à sua maneira.

Fantástico é pouco.

Dizem que ir à Turquia e não voar de balão na Capadócia é como ir a Roma e não conhecer o Vaticano ou chegar a Nova York e não ver a Estátua da Liberdade.

Depois daquele voo, comecei a entender o exagero.

Konya e o Castelo de Algodão

Seguimos viagem para Konya, cidade profundamente ligada à tradição de Rumi e dos dervixes rodopiantes. À noite assistimos àquela cerimônia impressionante, com seus movimentos circulares carregados de simbolismo e espiritualidade.

Depois veio Pamukkale.

O famoso Castelo de Algodão.

Há paisagens bonitas e há aquelas diante das quais simplesmente paramos.

Pamukkale pertence à segunda categoria.

Suas formações brancas, criadas ao longo do tempo pelas águas termais ricas em minerais, produzem uma paisagem quase irreal.

Naquele momento, a impressão que tive foi simples: a mão de Deus havia passado por ali e deixado alguma coisa diferente.

Mas nossa maior emoção ainda estava alguns quilômetros adiante.

Éfeso — a cereja do bolo

Chegar a Éfeso representava muito para nós.

Caminhamos pelas ruínas daquela extraordinária cidade da Antiguidade, vimos a Biblioteca de Celso e percorremos ruas que carregam milhares de anos de história.

Mas havia um lugar especial esperando por nós no Monte Koressos:

a Casa da Virgem Maria.

Segundo uma antiga tradição cristã, Maria teria passado ali seus últimos anos. Hoje o local recebe peregrinos cristãos e também muçulmanos.

Para mim não foi simplesmente uma visita turística.

Foi emoção.

As lágrimas vieram sem pedir licença. Naquele momento me senti profundamente tocado e agradecido.

Éfeso tornou-se, para mim, a cereja do bolo daquela viagem.

E aquela visita ainda me fez lembrar de algo muito mais próximo de casa: o Santuário de Nossa Senhora, em Natividade, no Noroeste Fluminense, onde existe uma reprodução da Casa de Maria.

Às vezes precisamos atravessar o mundo para reencontrar alguma coisa que também está perto de nós.

Troia, Çanakkale e o sonho de Marina

Seguimos para Pérgamo e depois para Troia.

Estávamos diante de um nome que atravessou milênios.

Troia.

Gregos, troianos, Helena, Paris, Aquiles e o lendário cavalo de madeira — História e mitologia misturadas num mesmo lugar.

Mais tarde, em Çanakkale, encontramos também o enorme cavalo utilizado no filme Troia, posteriormente doado à cidade.

Era hora de começar o caminho de volta.

Chegamos ao Estreito de Dardanelos e fizemos a travessia de ferry. Ali Marina realizava outro desejo daquela viagem: navegar por aquelas águas históricas que ligam o Egeu ao Mar de Mármara.

Foram momentos tranquilos, daqueles em que não é preciso dizer muita coisa.

Basta olhar.

De volta a Istambul

Depois de tantos quilômetros, retornamos a Istambul.

Tivemos nosso último dia livre para caminhar sem pressa, almoçar, rever lugares e simplesmente aproveitar a cidade.

Era hora de fechar o roteiro turco.

No dia seguinte, 1º de abril de 2019, seguiríamos para a França, onde ainda passaríamos quatro dias em Paris.

Mas Paris pode esperar.

A Turquia merecia alguns minutos de silêncio antes da próxima viagem.

Em poucos dias havíamos passado da Europa para a Ásia, navegado pelo Bósforo, atravessado a Anatólia, voado sobre a Capadócia, conhecido Pamukkale, caminhado pelas ruínas de Éfeso, chegado à Casa de Maria e encontrado a lendária Troia.

Começamos aquela viagem atravessando continentes. Terminamos percebendo que algumas viagens atravessam é a gente.

Esse seria meu fechamento. E acho que encontramos também o subtítulo: “Entre dois continentes, uma viagem de emoções.” Ele abraça tanto a geografia da Turquia quanto o balão, Éfeso e o sonho de Marina.

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