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Mostrando postagens de maio, 2026

Porre em Bruxelas

  Claro que muitos passeios e histórias poderiam ser contados sobre este país e sobre essas duas cidades belgas, mas confesso que lembrar da nossa estada por lá marcada por um memorável pileque de cerveja é bem mais divertido. Experimentei praticamente todas as marcas que encontrei pela frente e, mesmo sabendo que o teor alcoólico das cervejas belgas era o dobro — ou, em alguns casos, quase o triplo — das nossas, fui saboreando uma a uma. Quando subi para o quarto, ouvi a ordem em tom firme: “Nem se atreva a entrar no banho. Deite assim mesmo e evite um acidente na banheira.” Era Marina, precavida como sempre, cuidando de mim e percebendo que o estado do marido, naquela noite, estava longe do normal. Obedeci. Dormi até o dia seguinte, quando finalmente encarei a banheira e, além de curar o porre, tratei também de colocar em dia a higiene que havia ficado para trás na noite anterior.

Pub italiano

  Foi em uma destas casa da Gran Via, no já distante 2005, que vivi o primeiro bom "causo de viagem" que começo a narrar por aqui, e, podem ter certeza, foi um momento maravilhoso e daqueles que eu digo aqui, falei acima, o motivo real das minhas andanças, que é conhecer novas culturas e novas pessoas.  Em um pub, estilo anglo/italiano, (foto) na Gran Via, entramos eu, Marina e nossos quatro companheiros de viagem, e o napolitano, dono do estabelecimento, me chamou no canto, descobrindo que eu era o líder do grupo, e me disse que fecharia às onze horas e não poderia esperar sequer um minuto a mais. Segundo ele eram ordens e estas medidas estavam pregadas na porta.  Me apresentei dizendo que era jornalista brasileiro, com descendência italiana e que o futebol era meu carro chefe. - Sou amigo de Careca e Alemão, estive com amigos na semana passada, em Campinas, e até o Maradona estava por lá, dizia eu para o italiano esperando que isto o amolecesse e ele nos deixasse beber ...

Bateax Mouche

  Decepção no Bateaux Mouche Naquele fim de setembro de 2008, eu achava que nada poderia tirar o brilho da nossa despedida de France . Estávamos a bordo do Bateaux-Mouches , navegando pelas águas do Seine , em um daqueles cenários que parecem feitos para cinema. A cidade iluminada, o clima perfeito, a despedida ideal de Paris . Mas foi ali que uma turista asiática conseguiu algo raro: Me fez perder o rebolado. Nós, brasileiros, acostumados a investir uma pequena fortuna em equipamentos fotográficos de última geração, já nos sentíamos bem servidos com nossas câmeras. Eu, com minha fiel Canon a tiracolo, estava feliz da vida, registrando cada detalhe da viagem. Até que ela apareceu. A moça trazia um equipamento que, para 2008, parecia coisa do futuro. Uma câmera moderna, tripé compacto e... um controle remoto. No começo, achei que estava vendo errado. Mas não. De longe, com toda tranquilidade do mundo, ela posicionava a câmera, se afastava alguns metros, apontava discret...

Pastel de Belém

  Pastel que não era o da Vovó Maria Muita gente que visita Lisbon costuma voltar falando da Belém Tower , do Jerónimos Monastery ou até do túmulo de Vasco da Gama . Mas a minha história daquele dia não tem nada a ver com monumentos. Minha batalha em Belém tinha outro objetivo. O famoso Pastel de Belém . Para saborear aquela iguaria, fiquei mais de uma hora em uma fila que parecia não ter fim. Quilométrica. E, enquanto eu avançava centímetro por centímetro, a fome só aumentava. Marina, mais esperta que eu, preferiu me esperar na sombra, visitando outras atrações da região. Em um momento, voltou, me olhou e soltou: — Você vai se frustrar. Não é nada do que está pensando. Ignorei. Na minha cabeça, “pastel” era pastel. Se fosse de bacalhau, melhor ainda. Se tivesse carne, camarão ou até queijo, já resolveria meu problema. A fila andava até mais rápido do que eu imaginava, mas, já próximo da entrada, comecei a estranhar algumas coisas. Não ouvia aquele barulho clássico do...

Veneza

  Volare cá e pagode lá Chegamos ao hotel, em Mestre , onde ficaríamos hospedados depois de um dos passeios mais aguardados da viagem: conhecer a inesquecível Venice . Antes disso, cruzamos o Adriatic Sea e atracamos próximos à St. Mark's Basilica e à famosa Piazza San Marco . E preciso confessar: chamar aquele lugar de bonito seria injusto. Aquilo é maravilhoso. Encantador. Tudo parece pulsar ao mesmo tempo. Músicos de rua, mágicos, pombos disputando espaço com turistas, gente bonita, gente alegre, idiomas cruzando o ar, culturas se encontrando em cada esquina. Veneza não se visita. Veneza se sente. E então veio o momento mais especial. O passeio de gôndola pelo Grande Canal. Éramos apenas nós dois — eu e Marina —, um casal de músicos, com acordeom e violino, e o gondoleiro, conduzindo a embarcação com sua tradicional camisa listrada. Enquanto a gôndola deslizava suavemente pelos canais venezianos, os músicos perceberam nossas conversas, nossos olhares, talvez até nossa emoção. ...

Cracóvia e a dança

  Dançando no Bunker No Leste Europeu, enfrentávamos a primavera mais fria das últimas quatro décadas. Havia quase dez dias estávamos cruzando estradas, conhecendo cidades, encarando o vento cortante e temperaturas que, para brasileiros, pareciam castigo. Naquela noite, o termômetro marcava menos três graus. Confesso: depois de tantos dias de estrada, a gente precisava de um pouco de diversão. Saímos eu, Marina e Chico. O destino era uma casa típica, acolhedora, dessas que parecem abraçar a gente antes mesmo do primeiro gole de vinho. Assim que entramos, ouvindo a música ambiente e observando o salão, comentei com meus companheiros: — Hoje vai ser uma grande noite. Essa música e essa dança polaca me levam de volta a Miracema... aos tempos das audições da professora Onidéia, quando dancei músicas de vários países nos espetáculos que ela ensaiava com tanto capricho. Entre taças de vinho e boas risadas, assistíamos às apresentações dos bailarinos da Poland , até que veio o conv...

O Sósia

  O Sósia Ainda na base, depois do passeio de balão, enquanto fazíamos o chamado pequeno almoço — o nosso café da manhã — aconteceu algo que até hoje rende boas lembranças. Um dos navegadores do balão, uma espécie de co-piloto da equipe, se aproximou de mim com um sorriso largo e pediu uma foto. Fizemos uma selfie, e até aí tudo parecia normal. Só parecia. Logo depois, ele começou a mostrar a foto para os companheiros de equipe, apontava para mim, falava algo em turco e todos me olhavam com expressões entre surpresa, respeito e entusiasmo. Aquilo me deixou intrigado. Mas, pensando bem, não era a primeira vez que isso acontecia naquela viagem. Antes, na região de Cotton Castle — a famosa “Chaminé de Algodão” — o fotógrafo oficial já havia feito algo parecido. Tirou várias fotos minhas, espalhou algumas para venda e, desde então, eu vinha percebendo olhares curiosos e sorrisos por onde passava. Resolvi então perguntar ao nosso guia, Caió — um turco que havia morado algum temp...

Comida e piriri

  Madrid, 2005 — O almoço que custou caro Era nosso segundo dia em Madrid , em maio de 2005. Depois de uma manhã intensa de caminhadas e visitas ao Museo del Prado e ao Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía , seguíamos pelo centro da capital espanhola quando demos de cara com um brasileiro distribuindo panfletos de restaurantes para turistas. Claro que paramos. A conversa começou por causa da camisa que ele vestia — a inesquecível do Tabajara FC, aquela imortalizada pelo Casseta & Planeta . O papo fluiu fácil, com aquele jeito que brasileiro tem de transformar cinco minutos em amizade. Em determinado momento, ele bateu o olho na minha camisa do Clube de Regatas do Flamengo — presente especial de Célio Silva — e soltou: — Troca comigo? Olhei, ri e respondi que aquilo não tinha negócio. Ele não insistiu. Apenas abriu um sorriso e lançou a proposta: — Então façamos o seguinte: vocês vão ao restaurante que estou indicando. Se os quatro forem, vocês garantem o meu a...

Madrid 2005

  Madrid, vinho e um violão brasileiro A noite começava a cair em Madrid . O frio, daqueles que chega devagar e vai tomando conta das ruas, já dava sinais de que seria companhia até o fim da madrugada. Eu estava nas proximidades do Royal Palace of Madrid , sentado em um pequeno bar, saboreando um vinho espanhol e observando o movimento. Gente indo, gente vindo, turistas correndo atrás das últimas fotos do dia, moradores voltando para casa... e eu apenas vivendo o momento. Foi então que, em meio aos sons da noite madrilenha, um violão roubou minha atenção. Mais do que isso: era uma melodia brasileira. Cheguei de mansinho, sem querer interromper. Fiquei alguns instantes apenas ouvindo, até criar coragem para fazer o pedido, em bom português: — Garota de Ipanema. O rapaz interrompeu o dedilhado, me olhou de cima a baixo, esboçou um sorriso e respondeu: — Se cantar, eu toco. E eu cantei. Cantei Garota de Ipanema . Cantei mais uma. E, entre acordes, risos e aquela coincidênci...