Cerveja belga
A arquitetura gótica de Bruxelas e a serenidade dos canais de Bruges ofereciam um cenário digno de contos de fadas, o tipo de cartão-postal que, com o tempo, tende a se tornar apenas uma coleção de imagens estáticas e museus silenciosos na nossa memória. Claro que muitos passeios e histórias poderiam ser contados sobre este país e sobre essas duas cidades belgas, mas confesso que lembrar da nossa estada por lá marcada por um memorável pileque de cerveja é bem mais divertido.
Era o terceiro dia da viagem. Havíamos decidido — ingenuamente — fazer uma jornada pelas tradições cervejeiras da Valônia e de Flandres. O roteiro era promissor: cada tavernazinha de esquina escondia uma garrafa especial, um rótulo que dizia ser a melhor da região, um teor alcoólico que prometia abrir portas da percepção que, francamente, deveriam ter permanecido trancadas.
Experimentei praticamente todas as marcas que encontrei pela frente e, mesmo sabendo que o teor alcoólico das cervejas belgas era o dobro — ou, em alguns casos, quase o triplo — das nossas, fui saboreando uma a uma. Cada copo, um cálice ornamentado; cada gole, uma nova descoberta, seguida de uma dose de audácia maior do que a minha tolerância permitia. O malte denso e o lúpulo floral foram compondo, na minha cabeça, uma névoa espessa que tornava os paralelepípedos belgas cada vez mais irregulares e traiçoeiros sob os meus pés.
Quando, enfim, atravessamos a soleira do hotel, o mundo parecia oscilar entre o dourado das abadias e o rodopio dos monumentos que tentavam manter a pose enquanto eu perdia a minha. Caminhei pelo corredor arrastando o que restava da minha sobriedade.
Ao abrir a porta do quarto, quando o frescor do ambiente não foi o suficiente para trazer o juízo de volta, ouvi a ordem em tom firme, quase imperativo, mas ainda assim carregado daquela paciência infinita:
— Nem se atreva a entrar no banho. Deite assim mesmo e evite um acidente na banheira.
Era Marina, precavida como sempre, cuidando de mim e percebendo que o estado do marido, naquela noite, estava longe do normal. Ela viu a manobra hesitante, a minha tentativa quase patética de demonstrar equilíbrio, e tomou as rédeas da situação. A sua voz funcionou como uma âncora; perdi a luta contra a gravidade no instante seguinte, sentindo a cama ceder sob o meu peso como se fosse a única superfície sensata num mundo inclinado.
Obedeci sem titubear. Apaguei ali mesmo, sem sonhos ou culpas, entregue ao cansaço da cevada e à proteção daquela que sabia que a vida a dois é feita de momentos de aventura, mas também de vigília.
Dormi até o dia seguinte, quando o sol, intrometido, atravessou a cortina do hotel para avisar que a realidade estava de volta. Finalmente encarei a banheira e, além de curar o porre, tratei também de colocar em dia a higiene que havia ficado para trás na noite anterior. Enquanto a água morna corria, lembrei de Marina, rindo de soslaio, e cheguei à conclusão óbvia: se na Bélgica a cerveja era lendária, a capacidade de sobreviver aos efeitos dela, com um anjo da guarda particular, era um privilégio muito maior.
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