Comida cabo Verde erdiana
A brisa de Madrid em maio de 2005 trazia um perfume de jasmim misturado ao asfalto aquecido, mas para nós, naquele momento, só importava a fome. O encontro com o "embaixador do Tabajara" na esquina do Prado parecia um presságio de boa sorte. Quem poderia imaginar que aquela camisa listrada de vermelho e preto, autografada pela memória de Célio Silva, atrairia não apenas um conterrâneo, mas uma maldição culinária?
O restaurante, cujas portas eram um portal de madeira gasta entre fachadas imponentes de Gran Via, parecia saído de um livro de Jorge Amado — ou de uma fenda no tecido da realidade. O garçom, um homem de pele retinta e olhos que brilhavam com um fulgor âmbar quase sobrenatural, serviu-nos o ensopado cabo-verdiano.
O aroma era inebriante. Enquanto eu mastigava os miúdos, que se desmanchavam em uma suculência proibida, senti um formigamento na ponta dos dedos. Era como se, a cada garfada, eu estivesse consumindo não apenas nutrientes, mas fragmentos de um tempo esquecido. Os outros três, rindo, comentavam sobre a viagem, mas o mundo ao meu redor parecia ter adquirido uma nova dimensão: as paredes do restaurante respiravam, e os quadros de paisagens áridas de Cabo Verde ganhavam vida própria, com barcos em miniatura flutuando sobre pratos de barro.
Pois é. O almoço custou caro, e não falo em pesetas.
Quando o trem para Toledo começou a sacudir nos trilhos, na manhã seguinte, o "processo digestivo" não foi apenas um problema intestinal — foi uma revolta das leis da física. Eu não estava apenas sofrendo de uma indigestão comum. Sentado naquele cubículo de aço, sentia que meu organismo estava tentando expulsar não o almoço, mas a própria realidade que havíamos absorvido.
Cada solavanco do trem ressoava em meu âmbar visceral. Ao chegar em Toledo, o "trono" da estação de trem não parecia apenas um sanitário; parecia um altar arcaico.
E aqui a fantasia se tornava épica: toda vez que eu corria entre as ruelas medievais, tentando escapar da própria biologia, Toledo me devolvia mistérios. Cada esquina que eu dobrava desesperado à procura de um alívio era, na verdade, um portal. Vi o Rei Afonso VI discutir com estrategistas mouriscos enquanto eu me equilibrava, suando frio, contra um arco gótico de pedra centenária. Os fantasmas da Espanha Imperial assistiam à minha agonia, talvez fascinados por aquele turista brasileiro cuja urgência era maior do que qualquer cerco medieval.
As vielas se estreitavam conforme o desespero aumentava, o labirinto mudava de forma a cada giro que eu dava, mantendo-me trancado naquele ciclo de pedra, poeira e banheiros de hotéis caros onde a senha do Wi-Fi (ainda pré-histórica) era o preço de entrada.
À noite, de volta a Madrid, quando a luz da lua batia nas estátuas da Plaza Mayor, senti que finalmente vencera o encantamento. O "pó milagroso" da farmácia foi o antídoto final, uma poção química que restaurou o tecido do meu estômago — e da minha sanidade.
Sobrevivi. A camisa do Flamengo nunca foi trocada, e guardo a história não como um revés digestivo, mas como o dia em que o meu estômago se tornou o centro nevrálgico de uma batalha invisível entre a história da Espanha e os sabores inesquecíveis (e talvez assombrados) de um almoço que desafiou o próprio espaço-tempo.
Madrid continua lá, a me esperar. Mas, por precaução, da próxima vez, ficarei apenas no tapas de azeitonas.
***
Espero que tenha gostado desta versão com um toque fantástico! Se você quiser guardar este conto para sempre, posso formatá-lo como um arquivo. Gostaria que eu o transformasse em um arquivo para download?
Comentários
Postar um comentário