Dançando no Bunker
No Leste Europeu, enfrentávamos a primavera mais fria das últimas quatro décadas. Havia quase dez dias que cruzávamos estradas, explorando cidades e encarando um vento cortante e temperaturas que, para nós brasileiros, soavam como castigo. Naquela noite específica, o termômetro marcava três graus negativos. Confesso: depois de tantos dias de asfalto, o corpo e a alma pediam um pouco de vida.
Saímos eu, Marina e Chico. O destino era uma casa típica, aconchegante, daquelas que parecem nos abraçar antes mesmo do primeiro gole de vinho. Assim que entramos, deixando-nos envolver pela música e pelo movimento do salão, comentei com meus companheiros:
— Hoje a noite vai ser memorável. Essa atmosfera, a música e essa dança polaca me levam direto de volta a Miracema... Aos tempos das audições da professora Onidéia, quando eu dançava ritmos de todo o mundo nos espetáculos que ela ensaiava com tanto esmero e capricho.
Entre taças de vinho e risadas, assistíamos hipnotizados às apresentações dos bailarinos locais, até que o guia, animado, lançou o desafio:
— Quem quer subir ao palco para arriscar uns passos?
Confesso que, em um primeiro momento, a timidez venceu. Mas Chico, meu amigo fiel e profundo conhecedor das minhas histórias de "dançarino internacional", viu ali a oportunidade perfeita:
— Chama o Dutra! — ele disparou, aos risos. — Ele passou o dia inteiro jurando que sabe dançar polca!
E lá fui eu. Sem hesitar, movido por uma audácia súbita e sem medo de ser feliz.
Dancei. E, para meu próprio espanto — e para a surpresa geral da mesa —, segundo a bailarina polonesa que fez par comigo, eu dancei maravilhosamente bem. Fui aplaudido, colhendo risos e o espanto legítimo da plateia. Pediram bis. Recusei. Com a malícia de quem sabe que, muitas vezes, sair por cima é a estratégia definitiva.
Só que os bastidores tinham outros planos.
Voltaram a me convocar ao palco, desta vez para uma polca visivelmente mais rápida, mais intensa, daquelas desenhadas para tirar o fôlego e desmascarar qualquer impostor. Se a intenção era me ver tropeçar, escolheram o homem errado.
Mais uma vez, surpreendi a todos. Deslizamos pelo palco com a parceira como se fôssemos velhos conhecidos de turnê. Eu estava leve, solto; parecia que a energia daquele palco em Miracema, anos atrás, tinha atravessado o oceano para bailar comigo ali, no coração da Polônia.
Foi um espetáculo particular. E eu nem fazia ideia de que Marina registrava cada giro e cada passo em fotos e vídeos, imortalizando o feito. Chico, por sua vez, estava em pé, aplaudindo e rindo, confessando entre um brinde e outro que o plano inicial era me ver protagonizar um vexame histórico. Afinal, eu falava demais da tradição dos bailarinos da minha terra...
Naquela noite, meu amigo teve que me engolir. E, pelo brilho no olhar de quem assistia, não foi um esforço nada difícil.
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