Paris. Lili, Sena etc
O crepúsculo de Paris não era apenas a despedida do sol; era a abertura de um portal. À medida que o Bateaux Mouches deslizava silenciosamente pelo Sena, as águas de obsidiana começaram a vibrar, como se a cidade estivesse afinando uma harpa gigante sob o casco da embarcação.
Eu estava encostado na balaustrada de metal frio, sentindo o ar denso da noite parisiense. De repente, a silhueta gótica da Notre-Dame pareceu suspirar, e foi então que aconteceu. O céu não apenas escureceu; ele se rasgou em tons de veludo profundo. De trás de uma nuvem, uma lua cheia emergiu não como um astro, mas como uma joia de arquitetura cósmica. Ela não apenas brilhava; ela reagia. Cada raio de prata que atingia a água fazia com que o Sena não apenas refletisse a luz, mas começasse a levitar em minúsculas partículas brilhantes, criando um rio de névoa e faíscas fluorescentes.
A Torre Eiffel, logo adiante, pulsava em uníssono. Naquela iluminação irreal, eu pude ver a estrutura metálica expandir-se, revelando entalhes invisíveis que contavam a história de todos os que ali desejaram estar. A magia do rio tornou-se física. Memórias e desejos não eram mais pensamentos abstratos; eles começaram a materializar-se no ar ao redor dos turistas.
Naquele êxtase de fantasia, a voz da minha mãe, Lili, pareceu ressoar na brisa noturna, trazendo o cheiro do pó de café de uma casa que ficava a milhares de quilômetros, em Miracema. A distância geográfica desintegrou-se. A “mesa de inspiração” que sempre esteve no meu coração tornou-se um altar flutuante na proa do barco.
Sem medir consequências — e talvez guiado por um encanto ancestral —, deixei as palavras escaparem, não como quem recita, mas como quem conjura:
"Quando a lua desce aqui no rio,
sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio.
Quando a lua nasce em cor de prata,
eu relembro Miracema em serenata."
No instante em que terminei, a luz da lua que se espelhava no rio subiu em espiral, cercando os turistas. Foi fascinante. Aqueles que antes olhavam com ceticismo tiveram seus rostos subitamente iluminados por visões dos seus próprios lares. Um turista japonês viu-se caminhando por uma cerejeira em flor em Kyoto; um senhor italiano sorria para o fantasma de sua infância num vinhedo da Toscana. O Rio Sena, em sua mágica infinita, não estava apenas fluindo; ele estava conectando o âmago de todas as almas ali presentes ao lugar que elas chamavam de “casa”.
Ao redor, os aplausos não foram apenas cortesias. Foram o reconhecimento de quem acabara de participar de um rito de passagem através do tempo. Compreendi, naquele momento, que viajar não é deslocar-se pelo mapa. É um exercício de transcendência. Enquanto o barco seguia seu curso entre as luzes da Cidade Luz e o brilho irreal daquela lua sobrenatural, percebi que não importa o quanto estejamos distantes, nossa alma tem uma bússola inabalável: o amor, a memória e a coragem de transformar a vida em poesia, para que todos — estrangeiros ou amigos — possam enfim reconhecer um pouco de si mesmos no olhar do outro.
Comentários
Postar um comentário