Pastel de Belém
O Engano de Belém: Ou quando o destino não tem óleo de fritura
Muita gente que atravessa o Atlântico em busca das terras de Cabral volta para casa entoando loas à Torre de Belém ou fazendo reflexões profundas sobre o Mosteiro dos Jerônimos. O pessoal é fã de Vasco da Gama, de história e de azulejos. Eu? Eu fui a Lisboa com um foco único, uma missão pessoal que envolvia um balcão e uma promessa de sabor: o famoso Pastel de Belém.
A fila era um monumento à paciência. Centímetro a centímetro, sob o sol português, minha fome – uma fome atávica, quase pré-histórica – ia se moldando ao formato do que eu imaginava encontrar. Na minha cabeça, um “pastel” não é um enigma. Pastel é patrimônio. É massa crocante, recheio borbulhante e o estalido característico do óleo quente encontrando o recheio. Imaginei-o de bacalhau, ou talvez uma carne suculenta, quem sabe até um queijo puxa-puxa para coroar a espera de uma hora.
A Marina, aquela criatura pragmática que conhece a vida melhor que eu, preferiu a sombra e a dignidade. De vez em quando, surgia para observar meu calvário. Em um de seus retornos, olhou para mim com aquela pena que só quem previu a queda tem:
— Você vai se frustrar. Não é nada do que você está pensando.
Ignorei. Quem ignora um aviso de companheira de viagem paga o preço. Segui firme, crente de que minha fome tinha endereço certo. Porém, conforme o destino se aproximava, a realidade começou a dar sinais contraditórios. Onde estava o chiado da fritura? Por que aquele ar não era carregado do cheiro inebriante do pastel de feira? Por que ninguém ali parecia ter os dedos besuntados de gordura, saboreando com deleite a iguaria?
Entrei. Peguei senha. A fome, impaciente, subiu do estômago para o juízo.
— Uma cerveja, por favor — pedi à atendente, já pensando na harmonização perfeita.
— Não servimos bebidas, senhor — veio a resposta, cortês como só uma atendente portuguesa consegue ser.
Foi aí que o cerco se fechou. Antes de eu tentar o banheiro, a Marina surgiu das sombras, acompanhada por um casal de mineiros que ria alto, daqueles risos de quem está testemunhando um erro épico ao vivo. Ela me poupou do resto. Quando finalmente saí, exausto e ainda faminto, eles me esperavam com umas caixas nas mãos.
— Cadê o pastel? Cadê o de carne? Cadê o de camarão? — perguntei, num desespero crescente.A Marina nem se esforçou para ser gentil.
— Eu avisei, bobo. Isso aqui não é salgado. É um doce de nata. Só os daqui podem ter esse nome.
Ali, segurando aquela caixa de papelão, compreendi a tragédia. A decepção foi tão grande que tirou a fome. Mordi um, sem convicção. Para ser honesto, detestei. Eu estava esperando o aconchego salgado da cozinha da Vovó Maria e encontrei uma sobremesa chique que insistia em manter o nome de uma comida de rua.
Levou anos para que eu fizesse as pazes com a nata. Foi em Sintra, longe daquele balcão, que resolvi dar uma segunda chance ao destino. Quando vi escrito “Doce de Nata” na vitrine, senti que o mundo tinha voltado aos eixos. Informação, afinal de contas, é a ferramenta mais valiosa na bagagem de um viajante, especialmente se ele estiver acostumado com os pastéis da Vovó Maria.
Hoje, entendo: às vezes, a gente viaja o mundo para descobrir que nem tudo o que tem o mesmo nome carrega o mesmo sabor. E que, quando a fome de um brasileiro fala mais alto, a doçura do mundo nem sempre é o que ele deseja, mas pode ser, com o tempo, o que ele precisa aprender a apreciar.
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