Pub Napolitano
Foi em uma destas casas da Gran Via, no já distante 2005, que a realidade decidiu curvar-se para acomodar o imprevisto. Ali, onde as luzes de neon de Madri competiam com a nostalgia das fachadas antigas, vivi o primeiro "causo de viagem" que começo a narrar, um momento que transcendeu o simples turismo e tocou o que chamo de o motivo real das minhas andanças: a magia do encontro.
Era um pub de alma anacrônica, um estilo anglo/italiano encravado na pulsante Gran Via, onde o tempo parecia sussurrar segredos de décadas passadas. Entramos eu, Marina e nossos quatro companheiros de viagem, alheios ao fato de que, naquele recinto, o relógio obedecia a uma vontade peculiar. Antes mesmo de escolhermos uma mesa, o napolitano, um homem cujos olhos carregavam o brilho úmido do Mediterrâneo, capturou-me pelo olhar. Chamou-me a um canto sombrio, onde as garrafas de vinhos raros pareciam brilhar com luz própria.
— Fecha às onze — trovejou ele, com uma severidade que parecia emanar das próprias tábuas do chão. — Não um minuto a mais. Ordens, amigo. Ordens celestiais.
As palavras, pregadas na porta em cartazes de tinta desbotada, pareciam mais um decreto de um reino esquecido do que um simples aviso comercial. Eu, jornalista brasileiro, herdeiro de tradições italianas e escolado no diplomacia das mesas de boteco, não me dei por vencido. Lancei mão da minha carta mais valiosa.
— Escute, caro senhor — comecei, adotando um tom de quem divide o pão. — Sou jornalista. De terra de pelada e sonho. Sou amigo de Careca e Alemão. Vi o brilho das chuteiras de Maradona ecoar pelas ruas de Campinas.
Enquanto eu disparava nomes de ídolos como se fossem encantos de proteção, vi o rosto do napolitano oscilar entre o ceticismo e uma curiosidade antiga. O pub começou a tremeluzir; as sombras se alongavam, e as pinturas de jogadores nas paredes pareciam se mover sutilmente, ganhando um ar de vida.
— Brasiliano — disse ele, num dialeto que misturava a cadência da Itália com o fogo de Madri. — Venha atrás do balcão. Vamos beber algo que não é vendido a turistas.
Lá fui eu, sentindo que a porta de saída de 2005 começava a se fechar para o resto do mundo, deixando-nos em um entretempo protegido. Enquanto falávamos de Maradona, do Nápoles e do destino entrelaçado dos povos, a conversa transcendia a linguagem; era uma dança de memórias.
Do outro lado do balcão, Marina e sua turma já não estavam mais apenas em um pub. Eles flutuavam em uma esfera de aprendizado: o garçom, um sevilhano cujas mãos pareciam ter sido desenhadas pelo tempo, ensinava-lhe, em um guardanapo de papel, não apenas a pronúncia da Paella, mas a geometria sagrada dos temperos e a alma de um tapa bem feito. Marina parecia anotar notas musicais, receitas que emanavam um perfume de especiarias ancestrais que, naquele instante, invadiam o salão como se florescessem ali mesmo, no meio da Gran Via.
As horas tornaram-se elásticas. Apenas uma hora estava planejada, mas foram três que passamos naquele reduto fora do mapa. Quatro garrafas de um vinho que parecia colhido de vinhas encantadas — sendo duas cortesias da casa, "saideiras" seladas com um brinde às divindades do futebol — marcaram a comemoração. Eu, o vencedor do concurso de crônicas sobre a Liga das Estrelas, percebi que o maior prêmio não era o papel passado, mas aquele portal que o futebol abrira em uma noite madrilenha.
Era apenas o segundo dia de uma primeira viagem à Europa. Foi o momento em que descobri que viajar não é apenas ir, é, acima de tudo, o convite para ser alterado pelo que se encontra. Depois daquela noite na Gran Via, outras cinco jornadas viriam, e em todas elas, busquei — e encontrei — os mesmos ecos de magia. Mas o pub de 2005, o napolitano severo e as receitas escritas em guardanapos de uma Marina fascinada, permanecem como o marco zero da minha bússola pessoal, a primeira página do livro de memórias que começo, agora, a compartilhar com vocês.
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